Um Pinóquio genuinamente brasileiro.
Na terça-feira passada foi feriado em São Paulo. Naquele dia me desloquei do Aricanduva, onde moro, até a Lapa; o motivo era nobre: assistir a apresentação do grupo Faces Ocultas. Fui sozinho, o que pra mim não é muito comum, mas, como minha expectativa era muito positiva, não haveria motivo que me impedisse.
Cheguei no Teatro Cacilda Becker às oito horas para assistir a peça intitulada Pinóquio, mas do lado de fora havia uma outra apresentação. Pensei: Que estranho! Quem é o Pinóquio? Aquele ali que está tirando a roupa ou aquela moça gemendo e chorando nesse vale de lágrimas?
Confuso como a maioria, tratei de verificar. De fato, aquele era outro grupo do qual conheço e admiro o trabalho e que foi convidado para se apresentar antes do Pinóquio. Era um experimento.
Lamentei a falta de informação dos organizadores na recepção e a impaciência de alguns pais que foram embora aborrecidos, sem entender o que se passava; mas ainda sim, o público presente era muito bom.
Adorei o que vi. E queria muito que essa informação fosse transmitida a cada membro daquele grupo. Então por isso decidi escrever.
A maneira pela qual resgataram a história do Pinóquio e deram uma nova cara para esse conto infantil me fez lembrar “Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Guará”, de Ângelo Machado, onde o autor muda uma série de elementos fundamentais, como o caçador sendo o inimigo, uma vez que ele é quem destrói a vida, além da relação amigável do lobo vegetariano com a Chapéuzinho.
Em Pinóquio, o roteiro foi muito original, inclusive o lenhador nordestino deu uma cara de Brasil bem genuíno: a sua preocupação com que material trabalhar evitando depredar as outras árvores, semelhante ao cuidado que os habitantes indígenas tinham pela natureza.
Numerosas relações foram se desenvolvendo, inclusive de caráter bastante educativo, do respeito, carinho e amor nas relações humanas e com o ambiente.
As árvores e suas folhas de uma divertidíssima criatividade, os figurinos bastante adequados, e o roteiro deu conta de mostrar a saga de Pinóquio, não perdeu ele de vista mesmo com tantas situações geradas.
Senti-me dentro da baleia, aquele mar foi uma delícia, uma baita onda gostosa que me sugou para dentro da história e depois me devolveu ao assento. Claro, estávamos num teatro.
Não cabe aqui falar em aspectos técnicos e tal, o importante é o que foi transmitido. Também não vou falar de aspectos individuais porque o que mais conta no Vocacional é o trabalho de grupo e isso foi admirável no Faces Ocultas.
É sem sombra de dúvida um trabalho de grande sensibilidade e boas intenções.
Parabéns a todos. E desejo sucesso!
Daniel Burgos
Ponto Org Teatral
Email recebido em 23/11/2007, após nossa apresentação no Teatro Cacilda Becker em 20/11/2007.